segunda-feira, 19 de outubro de 2009

































O pedagogo da esperança e da liberdade







Por Ademar Bogo*
Paulo Freire é um daqueles seres humanos que entram na história para nunca mais sair. Pela simplicidade, dedicação, persistência e empenho com que tratou a educação, continua presente em todos os lugares em que se discute a transformação da realidade.
A sua grande descoberta, já no final da década de 1950, foi que aprendemos a ler o mundo que nos cerca, antes mesmo das palavras e frases [1]. A partir daí tornou-se o grande pedagogo, amigo e militante das lutas sociais.
O caminho indicado para aprender a ler o mundo a partir da ótica política seria a luta, por isso não só declarou que “todos sabemos alguma coisa”, como também despertou na geração de seu tempo e posteriores a esperança de mudar o mundo. Conjugou como se fossem verbos as palavras “esperança e liberdade” e as interligou na prática revolucionária de cada dia.
Astuto como educador e militante, percebeu que o mundo das necessidades tem os problemas e, ao mesmo tempo, as soluções. A organização e a luta é que nos fazem sujeitos da história. Assim aconteceu com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
O problema social é o mundo imediato de qualquer ser social que encara a vida com vontade de se tornar sujeito. Ler a existência da exploração e do latifúndio foi a forma embrionária da consciência, ela permitiu que os trabalhadores sem-terra, dispersos, procurassem algum lugar onde pudessem denunciar o que sabiam; isso porque, na luta social, num primeiro momento, o saber se dá na forma de “reclamação”.
A reclamação colocada se estabeleceu como “denúncia”. Era a comparação das condições que havia entre os seres sociais que possuíam os mesmos direitos, mas se diferenciavam nas condições.
Por sua vez, a denúncia se transformou em “crítica” e essa, ainda espontaneamente, avançou para a revolta. A revolta foi o primeiro sinal de que a organização da classe estava se configurando. Agora existia porque aparecia e incomodava.
A leitura do mundo despertou a “imaginação” que, no fundo, era o desejo de mudar. Era a esperança que desabrochava, como o movimento da primavera que não se pode conter.
Depois da leitura do mundo, vieram os documentos, as pautas de reivindicações, as notícias nos jornais onde alguém que aprendera a ler as letras (provavelmente sem ter levado em consideração o mundo em que vivia) discorria diante dos ouvidos atentos, para saberem se as palavras escritas retratavam o que haviam feito.
Dessa forma, o MST, ao nascer e se desenvolver, nada mais fez do que confirmar pela prática, o que Paulo Freire havia descrito em suas reflexões.
A prática ensina, dizia Paulo Freire, mas esse conhecimento não basta, “precisamos conhecer melhor as coisas que já conhecemos e conhecer outras que ainda não conhecemos”[2]. Conhecer, então, é mais do que uma curiosidade, é apreender a realidade como se ela nos pertencesse.
Foi por esse caminho que Paulo Freire nos levou pela mão; nos fez apaixonados pelo conhecimento e pela humanização, pois conhecíamos o latifúndio pela sua extensão antes da ocupação, mas isso não era tudo, as letras e os números traziam, com precisão, o nome, tamanho e proprietário daquele território sem fim.
Ao tomar conhecimento dessas características, compreendíamos as classes sociais, sabíamos o porquê de estarmos em lados opostos e porque éramos inimigos. Compreendíamos não pelas letras, mas porque víamos o proprietário que, sozinho, tinha uma enorme propriedade que não cumpria a função social. Por isso não havia mais terra disponível em nosso país para quem quisesse trabalhar para sobreviver.
O conflito, por essa leitura do mundo e das letras, tornou-se uma saída para resolver as necessidades que motivaram a luta. Então lutar é bom, é um prazer porque nos ensina a ler o mundo melhor e a descrevê-lo como se fosse nosso.
“Estar no mundo e com o mundo”
Paulo Freire nos ensinou o caminho para a formação da consciência na sua forma política. Ensinou-nos que “estar no mundo e com o mundo” é não somente aprender a ler a realidade, mas propor-se a modificá-la, já que alteramo-nos na medida da alteração que provocamos. Acreditava Freire que “o mundo não é, o mundo está sendo”.
Antes de entrar na luta pela terra, as pessoas “estão no mundo”, mas se comportam como se estivessem fora dele. Vêem os problemas, mas se desviam deles. Aparentemente, a fome, a falta de trabalho e moradia etc. não têm causa, e, onde não há causas, não há lutas.
Talvez ninguém tenha entendido e aplicado tão bem quanto Paulo Freire a terceira tese sobre Feuerbach, onde Karl Marx e Friedrich Engels, descreveram que, “o próprio educador tem que ser educado” [3]. Ou seja, educar é buscar formas de modificar as circunstâncias em que vivemos para modificar-nos junto. Separar os sujeitos das circunstâncias em que vivem, é descomprometê-los. E não pode haver jamais um movimento social sem comprometimento.
Paulo Freire percebeu que os problemas sociais não são apenas uma criação humana que diminuem a humanização, mas que eles também são a porta do conhecimento. Então, na ligação entre o ser e as circunstâncias, os problemas se transformam em temas geradores do próprio conhecimento.
“A leitura do mundo”, de acordo com Paulo Freire, nada mais é do que uma leitura de nós mesmos e das circunstâncias que nos rodeiam. Através dessa leitura reconhecemos que, aquilo que parecia estar somente fora de nós, está também dentro, como cicatrizes. O educador nos ajudou a descobrir-nos, porque ele já tinha se descoberto anteriormente e, em si, processou a modificação enquanto pedagogo.
Daí que, o “professor” da tese de Marx e de Engels, no movimento social, pode ser entendido como a liderança. Organizar a luta é um conhecimento político que precisa de habilidade, inteligência e astúcia. Logo, a formação política procura combinar formas e conteúdos. Assim, atinge-se o estágio de liderança quando o fazer e o dizer não estão em desacordo; quando as relações expressam a lógica das combinações e das contradições. Nessa perspectiva Freire afirma que:
“A partir das relações do homem com a realidade, resultantes de estar com ela e de estar nela, pelos atos de criação, recriação e decisão, vai ele dinamizando o seu mundo. Vai dominando a realidade. Vai humanizando-a. Vai acrescentando a ela algo de que ele mesmo é o fazedor. Vai temporalizando os espaços geográficos. Faz cultura...”. [4]
O processo de estabelecer relações políticas entre as pessoas e dessas, organizadas com a realidade, defendidas por Paulo Freire, é a base fundante da proposta pedagógica do MST, pois para o Movimento, fazer uma ocupação ou construir uma escola são atividades de igual importância.
Sair de inóspitos recantos, de acampamentos e assentamentos, para construir, com trabalho voluntário, a Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema, no Estado de São Paulo, para, depois do espaço preparado, participar dos cursos de formação de militantes, é a dinamização do mundo, agora sendo criado e recriado pelo fazer das novas relações brotadas da afirmação da auto-estima. É o valor da solidariedade elevando o ser humano a uma nova categoria, a de sujeito do velho mundo, só que lido e interpretado com os olhos do novo sonho.
Assim estar com o mundo é querê-lo e desejá-lo. Os olhos que viam e descreviam, agora sentem que, ao ler o mundo, pulavam pedaços na leitura, porque não entendiam a totalidade da mensagem oferecida pelas contradições da realidade. Ser militante é ler o mundo por inteiro. É relacionar-se com ele através da economia, da política, da ideologia, da cultura, da arte etc.
O fio que liga os passos desse conhecimento é o tema gerador, que aparece com facilidade, como se viesse ao encontro no caminho que se vai a pé. A diferença é que, quanto mais tempo se anda na militância, sem abandonar os temas iniciais, os que aparecem são cada vez mais complexos e surpreendentes. Ou seja, se o primeiro tema motivador da discussão e do aprendizado era latifúndio, com espaço determinado, agora é imperialismo, espaço mundial, que tem a cara curtida pela guerra. Lê-lo, significa interpretá-lo, nunca temê-lo.
Aprendemos com Paulo Freire e na luta que a leitura crítica do mundo amplia o próprio mundo. E ao lê-lo conscientemente, evita-se cair em enganos e cometer desatinos.
A prática política e a democrática
Nos princípios organizativos extraídos da experiência da luta de classes na história, a democracia e a participação possuem grande importância. Paulo Freire não deixou de percebê-las e recomendá-las. Para ele, o sectarismo além de ser uma doença é um ato de desamor. “O povo não conta nem pesa para o sectário, a não ser como suporte para seus fins...”.[5]
Não seria possível organizar um movimento social impondo idéias e desmerecendo as idéias amigas. Um movimento social é filho da solidariedade política da sociedade. Esquecer desse detalhe é isolar-se e provocar a própria derrota. Um movimento social é uma obra coletiva, tanto dos que diretamente participam quanto daqueles que admiram a sua construção. A leitura favorável dos fatos cria as circunstâncias para os passos seguintes. O olhar amigo é sempre uma trincheira de autodefesa.
É esse sentido que se pode extrair das palavras de Paulo Freire, que a força jamais deve desconsiderar a inteligência. Em oposição ao sectário, pôs o radical. Enquanto o primeiro se coloca como o único fazedor da história, o radical “rejeita o ativismo e submete sempre a sua ação à reflexão” [6], por isso não detém nem antecipa a história. O sectário afasta, não permite aproximação e desconsidera a ajuda. Por isso, “nada cria porque não ama”.
Estuda, mas nada aprende. Fazer política é um exercício afetivo. A criatividade depende da afetividade e do respeito. A raiva e a arrogância só podem servir aos inimigos, pois ambas são forças que nos destroem por dentro.
O sectarismo pode se manifestar em qualquer aspecto da convivência social e política. Perceber os seus aspectos é conter a tempo a desarmonia interna.
Nesse sentido, aprendemos que todas as manifestações culturais, sejam elas artísticas ou religiosas, são idéias e práticas que, ao invés de serem discriminadas, reprimidas e proibidas, devem ser interpretadas e incentivadas. As festas e a alegria não podem ficar distantes das atividades políticas, porque a sociedade que pretendemos construir não pode ser triste e descorada.
No contexto da luta cotidiana, a leitura correta do mundo nos permite ver que a sociedade se organiza e se divide em classes sociais, não em credos religiosos, nem tampouco em etnias e gênero. E que nos movimentos sociais, a participação é motivada pela condição e posição de classe. Mulheres e homens aparecem como sujeitos fazedores da obra da emancipação. É pela participação política que aprendemos a ler o mundo politicamente.
Na labuta do dia-a-dia, constatamos que os textos mais difíceis de serem lidos na luta social são aqueles produzidos pelos sectários, porque nos forçam a romper com sentimentos que deveriam ser preservados. A democracia, então, nada mais é do que incentivar que cada um leia o mundo com seus próprios olhos e se proponha, junto com os demais membros da classe, a transformá-lo.
Exemplo de ética revolucionária
Pensava Paulo Freire que a grande preocupação com a transformação do mundo é se ela contribui para a emancipação, para a humanização ou não. Afirmava que “mesmo que não percebamos, nossa práxis, como educadores, é para a libertação dos seres humanos, sua humanização, ou para a domesticação, sua dominação”.[7] Ele nos desafiou a segui-lo, não somente na educação, como também nas atividades políticas e nas lutas sociais. Freire nos instigou a sermos agentes da transformação.
Mas ser agente da transformação exige discernimento de que conteúdo se deve desenvolver para que as pessoas se transformem juntas e para melhor. Não deixamos de ver isso nos escritos de Paulo Freire, que não faz outra coisa a não ser declarar que todos somos capazes e que temos dentro de nós a capacidade de fazer-nos diferente do que somos. Mas, para tanto é preciso ter o cuidado para diferenciar-nos dos opressores. Não temos apenas uma separação de classes com eles mas, acima de tudo, uma profunda diferença de caráter e de comportamento com a classe burguesa. Nesse sentido, alertou-nos Freire: “É necessário que os revolucionários dêem testemunho, mais e mais, da radical diferença que os separa das forças reacionárias”. [8]E esse testemunho é o fazer propriamente dito da libertação. Entretanto, o testemunho não se dá sem conflito, pois a ética torna-se necessária para que se possa avaliar os métodos utilizados nas relações políticas internas ou no trato com os inimigos.
É nesse contexto que se pode extrair do pensamento de Paulo Freire a importância dada à cultura. Para ele, as ações tornam-se cultura na medida em que, no fazer histórico, a realização do possível de hoje deva viabilizar para amanhã o impossível de hoje. Querer inverter ou impor a inversão dessa ordem é atentar-se contra as possibilidades históricas. O impossível de hoje terá que se tornar o possível de amanhã. É preciso trabalhar para isso, com um pé no presente e o outro procurando a base do futuro, para que os sonhos não cansem e adormeçam.
Na sua relação com o MST, Paulo Freire nunca escondeu o seu entusiasmo, por perceber que a obra da alfabetização e da formação das consciências, iniciadas por ele na década de 1950 no Nordeste do Brasil, continuava viva no cotidiano da luta por terra, escola e dignidade; e na formação política de nossa militância. Externou seu contentamento em um depoimento gravado em vídeo, em novembro de 1996, que dedicou aos educadores e educadoras do MST, ao dizer, no encerramento de sua fala: “Vivam por mim, já que não posso viver a alegria de trabalhar com crianças e adultos que, com sua luta e com sua esperança, estão conseguindo ser eles mesmos e elas mesmas”.[9]
A persistência de Paulo Freire e sua profunda crença no povo, na capacidade de organizar-se e buscar as formas da própria libertação, fez dele uma grande referência para os movimentos sociais que aprenderam, mais do que imitá-lo, a tê-lo como companheiro da formação política.
No MST, são inúmeras as homenagens prestadas a ele, seja na mudança de nomes das antigas fazendas em novos assentamentos, nos centros de formação ou em escolas de ensino fundamental. Sua obra é lida em todos os cursos de formação de educadores, do ensino médio à graduação, e nos de formação política; seu rosto aparece nos murais e pinturas feitas pelos artistas que lutam pela terra e pela emancipação de toda a classe trabalhadora; seus ensinamentos aparecem nas palavras de ordem, nas místicas e nas músicas feitas pelos educandos da terra de todos os cantos do Brasil.
Não é, mas poderia ser de Paulo Freire, a célebre frase “Proletários de todo o mundo, uni-vos”, pois esse era o seu sonho, ainda vibrante por todos os países por onde militou e ensinou.
Por toda a sua trajetória histórica e política é que para os educadores e educadoras do povo e movimentos sociais Paulo Freire vive como pedagogo, mas acima de tudo como militante da esperança e da liberdade.
Texto publicado originalmente na Cartilha Paulo Freire Vive! Hoje, 10 anos depois... [clique aqui e baixe]
* Membro da coordenação nacional do MST.1.FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 41.ed. São Paulo: Cortez, 20012. FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1982.3. MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Centauro, 2002, pág. 108.4.FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 15. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1983, pág. 43.5.Ibid, pág. 52.6.Ibid, pág. 50.7. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 41.ed. São Paulo: Cortez, 2001, pág. 69.8. FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1982, pág. 79.9. Paulo Freire em MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA. Paulo Freire: um educador do povo. São Paulo: Associação Nacional de Cooperativa

UM texto de Paulo Rosas sobre o pensamento de Paulo Freire




Paulo Rosas

Por Leila Oliveira Paulo da Silveira*
Rosas nasceu em 15 de abril de 1930 em Natal. Em 1953, concluiu o bacharelado na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Pernambuco. Interessado pela Psicologia, realizou pós-graduação em Psicologia Aplicada e Orientação Profissional no Instituto de Cultura Hispânica de Madri em 1954.
Retornando ao Brasil, Paulo Rosas buscou ampliar seus estudos de Psicologia por meio de leituras e investigações, quase como um autodidata. Em 1956, publicou sua primeira obra na área de Psicologia, Leitura, cinema e rádio - seu papel na formação pedagógica e psicológica da adolescência, resultado de pesquisa realizada com a. contribuição de seus alunos para a cadeira de Psicologia da Adolescência por ele ministrada no curso de Formação deOrientadores Educacionais, mantido pelo Instituto Pernambucano de Estudos Pedagógicos.
No mesmo ano foi contratado para lecionar a cadeira de Psicologia Educacional nos cursos de Pedagogia e Didática, na então denominada Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco. Na instituição, Paulo Rosas lutou pela criação de uma Divisão de Psicologia, finalmente instalada em julho de 1963, dentro do Instituto de Ciêndas do Homem, tornado-se o primeiro coordenador do Instituto e diretor da Divisão de Psicologia.
Sua preocupação com questões sociais levaram-no a participar como um dos sócios fundadores e coordenador de pesquisas do Movimento de Cultura Popular, amplo movimento de alfabetização popular ocorrido no Recife entre 1960 e 1964, do qual participaram também Anita Paes Barreto e Paulo Freire. A afinidade de pensamento entre Freire e Rosas especialmente no entendimento da educação como prática política, propiciou diversas atividades conjuntas na área educacional, além de uma fraterna amizade.
Em 1964, Paulo Rosas realizou estágio de Psicologia Experimental na Universidade de Paris, onde procurou especializar-se igualmente em Psicologia do Trabalho. Ao retornar, fundou o Instituto de Psicologia do Trabalho, onde permaneceu até 1971, incentivando a abertura do mercado para a prática privada nesta área em Pernambuco.
Professor em diferentes instituições de nível superior do Recife, Paulo Rosas chefiou departamentos de Psicologia e implantou cursos de pós-graduação. Em 1976 tornou-se livre docente e doutor em História da Psicologia pela UFPE, local onde desenvolveu, além de suas qualidades docentes, sua capacidade científica, sua competência, honestidade e conduta ética. Paulo Rosas aposentou-se da Universidade em 1988 e atualmente integra a direção do Centro Paulo Freire - Estudos e Pesquisas.

*Mestre em PsIcologia pela PUC-RJ. Pesquisadora do Núcleo Clio-Psyché do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)

PREFÁCIO
Argentina da Silva Rosas


Meados da década de 50, a Universidade Federal do Recife, hoje Universidade Federal de Pernambuco, ainda recém criada, punha à disposição da sociedade brasileira um grupo de intelectuais de reconhecido valor, que obtinha sucesso, notadamente, no sul do país. Alguns desses intelectuais, nesse período, tiveram oportunidades de cursos de pós-graduaçào ou estágios na Europa (França, Alemanha, Espanha, Inglaterra e Bélgica), patrocinados pelos governos desses países. Os Estados Unidos do após guerra viram nesta forma de incentivo uma rica via de publicidade, de forma que, a oferta de bolsas de pós-graduação para aquele país tornou-se razoavelmente grande, atraindo muitos dos recém-graduados.
Todavia, as facilidades de comunicação não eram como as de hoje e eiva restrito o número de editoras no Brasil, principalmente no Nordeste. No Recife, tinha-se que encomendar, aos livreiros, as obras clássicas ou algumas recentemente editadas em países estrangeiros. Na área das Ciências Humanas, salientava-se no Rio de Janeiro a Livraria Interciência, a Livraria Francesa e a Livraria de Jean Lessu, especializada em Psicologia. As dificuldades, entretanto, eram minimizadas pela colaboração daqueles que voltavam (de férias ou definitivamente) de seus estudos no exterior. Traziam catálogos de livros e revistas e, por vezes, traziam alguns livros encomendados. Com essas informações e aquelas provenientes das correspondências, os intelectuais faziam encomendas aos livreiros do Rio e de São Paulo, esperando mais ou menos seis meses para recebê-los. Outras fontes de aquisiçào de livros eram as editoras de outros países da Amériaca do Sul, como a Editora Paidós e Queluz que traduziam bons livros para o espanhol. Assim foi que, estudantes concluintes de Cursos Superiores ou iniciando-se profissionalmente tiveram acesso a muitas fontes, principalmente das Ciências Humanas. Os livros circulavam entre os interessados e se constituíam em leituras básicas para muitos deles. Destaco, sem receio de falha de memória, entre os intelectuais daquela época: Paulo Freire, Paulo Rosas, Germario Coelho, Daniel Lima, Sílvio Vasconcelos Coelho, Maria de Jesus Andrade, José Lins de Almeida, Lúcia Temporal, Carlos Maciel e Cláudio Souto, entre outros.
Outra forma de aquisição dessas fontes eram os sebos do Brandão, no Recife e os do Rio de Janeiro e São Paulo. Os Paulos, Freire e Rosas sempre que iam ao Sudeste visitavam estes sebos. Lembro-me da alegria de Paulo Rosas, quando encontrava um daqueles livros esgotados, mas que ele trazia anotado num papelzinho e bem guardado no bolso interno do paletó. Os Paulos trocavam seus achados. Liam e discutiam nas noites da Rita de Souza (casa de Paulo Freire). Muitos dos autores que eles citavam naquelas ocasiões só vim encontrá-los citacìos em livros, tais como Educaçào como Prática da Liberdade, Pedagogia do Oprimido e Educaçào e actualidade Brasileira.
Outra fonte influenciadora do pensamento de Paulo Freire encontra-se nas idéias Isebianas. O Grupo de Estudos "Descobrindo Paulo Freire através de sua Obra", atividade do Centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisas compreendeu que o conhecimento das fontes influenciadoras do pensamento de Freire, possibilitaria melhor compreensão da sua obra.
Essa questões, juntamente com outras similares foram levadas a Paulo Rosas, por várias vias, inclusive no I'V Colóquio Internacional Paulo Freire, realizado no Recife, de 16 a 19 de setembro de 2003 e pelo Professor Dr. iXfichel Soëtard.. Sensibilizado pelos questionamentos, Paulo Rosas decidiu fazer um estudo sobre o tema.
Coincidentemente, recebeu na mesma época convite da UNESCO para participar em Paris da segunda parte do Seminário Educaçãp e Transformação Social, cuja primeira parte foi relizada no Recife. Concomitantemente recebeu, também, o convite do Professor Michel Soëtard da Université Catholique d ' Ouest, de Angers – França para fazer uma conferência para doutorandos daquela Universidade.
Paulo Rosas iniciou sua pesquisa e criação do texto em francês, o qual foi revisado gramaticalmente por seu amigo Alcides Restelli Tedesco, que posteriormente o verteu para o Português.Esse texto foi a última leitura de Paulo Rosas, no leito do hospital, em Paris.
O texto está. sendo apresentado pela primeira vez, no original, em Francês e com a versão para o Português.


Fontes do Pensamento de Paulo Freire2
Paulo Rosas
Centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisas
Recife-FE / Brasil
1. INTRODUÇÃO
Estas são as primeiras palavras de Paulo Freire na abertura de "Educação como prática da liberdade". "Não há educação fora das sociedades humanas e o homem não existe no vazio".
Nunca uma construção filosófica ou científica se realizou no vazio: isto é, sem ligações profundas com os dados da cultura subjacente, com a história de vida de seus autores e com as fontes intelectuais – bibliográficas e formativas, filosóficas ou cientificas, às quais eles tiveram acesso.
Se falarmos de Paulo Freire, sua obra – talvez mais do que aquilo que se registra em outros autores – reflete sua cultura de origem e sua história de vida: Aprendendo com sua própria história, é o título de dois livros dialogados, escritos com o concurso de Sérgio Guimarães3.
Na minha ótica, esses livros testemunham o que acabo de dizer.
As considerações aqui exaradas procuram estar em sintonia com tais afirmaçòes. Elas se propõem a compor um <> para compreender Paulo Freire, como um personagem dele mesmo. Essas são fòntes do pensamento de Paulo Freirr. Entretanto, essas não constituem todas as fontes que conduziram Freire à construção de seus trabalhos filosóficos e pedagógicos. É necessário acrescentar as fontes bibliográficas que têm, igualmente, um papel que não pode ser esquecido, se nós queremos aprender – se não sua totalidade, pelo menos acerca de dessas fontes, que podemos identificar, como muito importantes para conhecer a construção do pensamento de Paulo Fnirr.
Este é o exercício que me proponho fazer agora e que lhes proponho que o façam comigo igualmente.
Num estudo biográfico sobre Paulo Freire (Rosas, P., 2003: 17-19), escrevi dizendo que a história de sua vida compreende três períodos, caracterizados por referências desiguais de espaço e de tempo:
a) O período do Recife, 1921 – 1964;
b) O período do exílio, 1964 – 1980;
c) O período de São Paulo, 1980 – 1997.
Devo, aqui, limitar-me ao período do Recife, ponto de partida que é para a construçào de suas contribuições filosóficas e pedagógicas, suas idéias e suas práticas. Entretanto, para concluir, direi umas breves palavras sobre os períodos do exílio e de São Paulo.
2. O PERÍODO DO RECIFE
2.1.História de vida: dados sócio–culturais subjacentes
Paulo Freire nasceu no Recife, Pernambuco, Brasil, 19 de setembro de 1921. Até o ano de 1964, morou no Recife, exceto durante o intervalo de 1932 a 1941,
2 Revisão por Alcides Restelli Tedesco, por Xavier Uytenbroek e por Rubem Eduardo Silva. Os três integram o centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisas.
3 Paulo Freire chamava "livros dialogados" os que ele escrevia em diálogo com outro educador (Sérgio Guimarães, Myles Horton, Donald Macedo, Antônio Faundez, Edson Passetti etc.), sobre uma questão ou várias questões temáticas e às vezes, mesmo sobre sua historia pessoal.
quando sua família, forçada por dificuldades econômicas sérias, deixa o Recife e passa a viver em Jaboatão, distante do Recife, 48 quilômetros. Jaboatão era, então, uma cidadezinha, onde não havia oportunidade de educação escolar, a não ser em nível primário.
Seu pai, Joaquim Temístocles Freire, era capitão da Polícia Militar de Pernambuco e sua mãe, Edeltrudes Neves Freire, ocupava-se das tarefas domésticas, tradicionalmente atribuídas à mulher: a educação das crianças, a administração da casa, bordar etc.
Ele tinha uma irmã, Stela, e dois irmãos, Armando e Temístocles.
Até 1932, eles moraram no Recife, numa casa de propriedade de seu tio Rodovalho, comerciante no Rio de janeiro, detentor de uma boa situação financeira.
Após 1929, com o "crack" da bolsa de valores de Nova York e com todas suas consequências para a economia mundial, seu tio Rodovalho hipotecou sua casa do Recife e a perdeu.
Este fato repercutiu diretamente na vida de sua família. Seu pai não .possuía àinheiro para fazer face às despesas com o aluguei de uma casa no Recife. Jaboatão .foi então, a alternativa possível. Verdade é que Jaboatão era bem próxima do Recife. No início dos anos 30, porém, em comparação com o Recife, as condições de vida em Jaboatào eram de um nível "mais baixo", em escala econômica e social. Freire tinha, então, de 13 a 20 anos, durante sua permanência em J aboatão.
Jaboatão representou para ele um desafio, no sentido de responder a uma outra experiência de vida. Da antiga posição social restaram apenas o piano, no qual sua tia Lourdes gostava de interpretar Chopin, Beethoven, Mozart... e a gravata de seu pai.
A alfabetização de Paulo Freire não segue o modelo convencional. "Eu fui alfabeúzado", diz-nos ele, "no chão, no pátio da minha casa, à sombra de mangueiras, com as palavras de meu mundo, não do amplo mundo de meu pai e de minha mãe; a tema era meu quadro negro; gravetos, meu giz" (Freire, P., São Paulo, 1982: 16).
Uma vez terminado o "curso primário" nada mais havia a fazer em Jaboatão, no sentido de continuar seus estudos em nível secundário. Freire chegou mesmo a iniciá-lo, no Colégio 14 de Julho, no Recife, numa escola de orientação francesa. A falta, porém, de recursos para pagar as despesas da escola, obrigou-o a interromper sua formaçào.
Após várias tentativas malogradas, sua màe estabeleceu contactos com o professor Aluyzio Pessoa de Araújo, diretor do Colégio Oswaldo Cruz, um educador extraordinariamente sensível que lhe concedeu uma bolsa a fim de prosseguir seus estudos. No Oswaldo Cruz, Paulo Freire realizou, enfim, os cursos secundário e pré-jurídico, conforme o modelo da época (Freire, A.M.A., 1996:30).
Por outro lado – o que foi importante – no Colégio Oswaldo Cruz, ele se tornou Professor de Língua Portuguesa, em nível secundário. Essa experiência o leva à descoberta de um mundo novo: O mundo da educação; a partir daí, o fio condutor do pensamento e das motivaçòes que serão a marca e darão sentido à sua vida.
Nos anos seguintes, Freire, sem abandonar o ensino da Língua Portuguesa4, iniciou seus estudos na Faculdade de Direito do Recife (1943) e casou-se com Elza Maria Costa (1944). Estes dois fatos deram nova direção a sua vida. Freire tinha, então, respectivamente, 22 e 23 anos.
4 A respeito do Ensino da língua Portuguesa, escreve Paulo Freire(1994: 103-4): " De 1941 a 1944, a partir do meu primeiro casamento, vivi um tempo intensamente dedicado às leituras, tão críticas quanto me era possível fazê-lo, de gramáticos brasileiros e portugueses. (...) raramente, naquela época, de tal forma estava eu alumbrado, apaixonado, enfeitiçado pelo ensino da língua Portuguesa, no ( olígrio Oswaldo (.rur. puc destinei um valor significativo à compsa de uma roupa.(...) Isto não quer dizer que minhas roupas fossem sujas, mas que andava feiosamentc vestido".
Mister se faz ainda, salientar experiências cujas conseqúências foram significativas para a construçào do pensamento de Paulo Freire.
• O período de trabalho no SESI (Serviço Social da Indústria), em que Freire foi Diretor do Setor de Educaçào e Cultura (1947-1954) e seu Superintendente (1954-1957);
• Suas atividades na Escola do Serviço Social de Pernambuco e na Escola de Belas Artes, da Universidade do Recife, na qual ele foi professor de História e de Filosofia da Educação;
• O Movimento de Cultura Popular (MCP), fundado com sua participação no qual ele foi Diretor da Divisão de Pesquisas e o Coordenador do Projeto de Educação de Adultos;
• O Serviço de Extensão Cultural (SEC), da Universidade do Recife, fundado e por ele mesmo dirigido.
Em resumo, essas experiências se completam. Longe de serem experiências perdidas em arquivos do passado, elas foram sempre representadas, recriadas, reinventadas, refeitas. Elas foram sempre novas fontes de pensamento de Paulo Freire, em permanente construção, jamais consideradas como dados acabados. Estas são palavras de Freire(2001:7): "Espero, finalmente, que o fato de estar constantemente retornando sobre certos núcleos temáticos, não somente em trabalhos diferentes, mas, com freqiiência no interior de um mesmo texto, não canse demais o leitor. Em última análise, é meu modo de escrever sobre aquilo que eu penso e de pensar sobre aquilo que eu faço."
Nos anos 60, antes de 64, havia no Brasil, particularmente no Recife e em Natal, um efervescente "clima", originado por movimentos progressistas e emancipatórios de educação popular, claramente de esquerda: Movimento de Cultura Popular(MCP), Recifè; De pé no chão também se aprende a ler, Natal5 CEPLAR6, João Pessoa.
Havia, também, o Movimento de Educação de Base (MEB), sob a direção da CNBB7, cujas atividades se desenvolviam por todo país. No que concerne a seus primeiros anos, o MEB estava menos à esquerda em comparação com os outros movimentos retrocitados. (Fávero, O. 2002:164).
Essa realidade era percebida pela maioria dos militares que detinham o poder de decisão e de mando, ao lado de dirigentes das organizações civis conservadoras, mais à cìireita, como subversiva, e, portanto, uma ameaça intolerável à proteção do modelo autoritário entào dominante. Isto é o modelo que era a expressão políúca dos fundamentos filosóficos e ideológicos para sustentar e defender a concepção do poder dominante sobre a ordem pública. No fundo, o sistema das relações de podes dos opressores sobre os oprimidos era posto em questào. E a manutenção de semelhante relaçào era uma questào cuja negociaçào era impensável.
No ano de 1964, de 31 de março ao 1º de abril, toda a vida social e política do Brasil foi transmutada através de um golpe militar e civil, caracterizado por práticas conservadoras e ditatoriais, Seu discurso caracterizava-se também, por um modelo de anticomunismo exacerbado. Havia um sentimento beirando quase o pânico, a idéia da possibilidade de cubaniçação do Brasil.
5 De pé no chão também se aprende a ler (Atenção: Notas 3,4 c5).
6 Campanha de Educação Popular.
7 Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
O golpe de estado – não uma Revolução, como os responsáveis pelo golpe de estado queriam fazer crer – de um dia para outro, causou difíceis e complexas mudanças no cotidiano de insútuições denominadas de progressistas, inclusive para as pessoas que compunham tais instituições, cujas atividades são denunciadas e, por isso são suspeitas de ter ligações com os comunistas. Perseguição, denúncia, prisão, tortura, desaparecimento, morte eram então ameaças reais, não fantasias. Era a desordem, convocada para restabelecer uma estranha repre.ienfação da ordem.
Naquele tempo, Paulo Freire exercia atividades no Recife e em Brasília. No Recife era ele responsável por um Programa de Educação de Adultos, do Movimento de Cultura Popular (MCP) e pela direção do Serviço de Extensão Cultural (SEC), da Universidade do Recife, a atual Universidade Federal de Pernambuco. Em BrasíTia, convidado pelo Professor Paulo de Tarso Santos, Ministro da Educação do governo destituído, Freire estava organizando e conduzindo um Programa de Formação de Professores ("formação de formadores"), com o intuito de eliminar o analfabetismo dos adolescentes e dos adultos, no Brasil.
No Recife e em Brasília, Paulo Freire fez experiências com seu método de alfabetização de adultos. Na verdade, mais do que um método de alfabetização, era um método de educação (um sistema de educação, que estava em construção, com o concurso de seus colaboradores, no SEC). Após haver realizado algumas pequenas práticas no Movimento de Cultura Popular e no quadro do Serviço de Extensão Cultural (1962), ele .havia dirigido a primeira experiência, cuja repercussão é mais significativa: Angicos, Rio Grande do Norte, 1963. A imprensa esteve atenta para essa experiência, dado que o Governo do Estado, através da Secretaria de Educação, era o responsável pelo desenvolvimento e execução do projeto. Por outro lado, a USAID havia dado a garantia de seu apoio, o que provocou uma certa desconfiança entre alguns participantes de outros grupos de esquerda, encarregados, eles também, da educação popular.Para aqueles que conheciam os objetivos e as práticas da USAID, a desconfiança não era absurda, apoiava-se, porém, sobre um dado de realidade. Freire, acreditando ser capaz de vencer os obstáculos políticos, interpostos pelo governador do Rio Grande do Norte e pela USA.ID, deu continuidade ao projeto de Angicos.
É necessário enfatizar que Paulo Freire não conferiu a seu método de alfabetização um sentido <>, limitado à aprendizagem do código que possibilitava a prática de <>. Ao contrário, Freire imprimiu-lhe um sentido antropológico, a partir da distinção entre natunça e cultura, esta entendida como qualquer mudança provocada pelo homem sobre a natureza: <>, dizia ele.
Freire levava os analfabetos a pensar: as penas dos pássaros são natureza, os coches dos índios, feitos com as penas dos pássaros, são cultura. A água é natureza; o poço construído pelo homem para reter ou guardar a água, é cultura. Enfim: a cultura é o resultado do trabalho do homem e se origina da necessidade. A conclusão é quase ince itável: <

<> o <<>> (transição) para a <>, <<>> ou <<>> (segundo a expressão de Gabriel Marcel, utilizada em Os homens contra o homano) e a <>.
Mais tarde, Freire insistiu sobre a noção de <>, <>, <>, <> que, de certa maneira, dá à leitura da palavra, seu sentido político.
Vale a pena registrar que em 1963, após a sessão solene, realizada para comemorar a conclusão da experiência de Angicos, o General Castelo Branco, futuso Presidente da República, sob a ditadura militar, fez uma observação ao Secretário de Educação do Rio Grande do Norte, professor Calazans Fernandes, a respeito do "método de Paulo Freire": <> (Lyra, C.1996:117).
Por conseguinte, pode-se dizer que, mesmo antes da eclosão do golpe de estado, Freire era considerado <> e <>, pelos militares e, sem dúvida, pelos civis que prepararam e concretizaram o golpe de estado de 1964.
Paulo Freire ficou preso durante 70 dias, a partir de 16 de junho. De certa forma, a prisão continha a significação simbólica de um aviso. Seria necessário deixar o Brasil. Seria necessário procurar espontaneamente o exílio, antes que uma nova prisão tivesse conseqiiências físicas e psicológicas mais graves. Entretanto, aquilo que eu chamo de aviso (sinal), não era uma garantia. Nem mesmo pode-se afirmar que havia a intenção de facilitar a saída de Paulo Fein, do Brasil.
2.2. As fontes bibliográficas
Durante seu período do Recife, Paulo Freire leu muito, pensou muito e muito escutou também, muito falou (cursos, conferências, às vezes conversas com amigos), seus escritos, porém, sempre criativos e inovadores, foram sobretudo, artigos e projetos: <>. O primeiro livro que ele escreveu data de 1959, quando tinha 38 anos. Educação e anualidade brasileira, tese que apresentou na Escola de Belas Artes, Universidade do Recife com o intuito de concorrer à cadeira de História e Filosofia da Educação.
Para melhor compreender as Fontes do Pensamento de Paulo Freire, busquei os seguintes trabalhos/textos que podem oferecer certas indicaçoes/referências para chegar à finalidade dessa análise.
Naturalmente, será necessário discutir a bibliografia que ele citou quando escreveu Educação e atualidade brasileira.
Quero antes, porém, fazer algumas reflexões a partir de uma anotação de Ana Maria Araújo Freire, incluída nas Cartas a Cristina, de Paulo Freire, bem como outras, referentes a certos escritos de Celso de Rui Beisiegel, de José Eustáquio Romào e a mim mesmo. Enfim, cheguei à Educajão e atualidade brasileira.
A.na Maria Araújo Freire (1994:292-95) fez um comentário sobre um <> onde Paulo Freire registrava as obras que havia comprado ou recebido, de presente. Discriminava-as, uma a uma, com o título, nome do autor, o preço (quando as comprava), etc. Freire fez assim de 1942 a 1955:572 títulos são assim registrados. A anotação de Ana Maria Araújo Freire se limita a ser uma seleção pessoal de autores, sem indicar os útulos das obras9. E, por conseguinte, a partir do conhecimento dos nomes dos autores, pode-se inferir as principais categorias dos trabalhos: são ensaios de filosofia, de história, de sociologia, de política, de educação, de psicologia, inclusive romances. Considerando as datas de compra das primeiras obras escritas, em línguas estrangeiras Ana Maria Freire presume que Paulo Freire
9 A.M.A. Freire enviou-me uma mensagem, via Internet, onde explica que tal anotação está mais completa na 2° edição de Cartas a Cristina.
tinha começado a ler em espanhol, em 1943; em francês, em 1944; e em inglês, em 1947.
Celso de Rui Beisiegel (1992) avança mais a fundo na questão. Apoiado em testemunho de Paulo Freire, Anita Paes Barreto, Silke Weber, Carlos Lyra e outros educadores, que participaram com Freire de suas experiências nos anos 50 e 60, Beisiegel não somente indica quais seriam as fontes do pensamento de Paulo Freire, mas as apresenta e as organiza de forma coerente, a partir de Alceu A.moroso Lima, consideado por Paulo Freire, como sendo aquele que marcou toda uma geração, ao lado de Georges Bernanos e de Jacques Maritain. De Maritain, diz Freire a Beisiegel, era nos anos 40 e 50 um escritor de vanguarda.
Beisiegel dá um passo a mais no sentido de elucidar as fontes do pensamento de Paulo Freire: ele acrescenta as contribuições de Gabriel Marcel, Emmanuel Mounier e Ortega y Gasset. A a idéia de circunstância, trabalhada por Ortega y Gasset em cinco dos seis volumes de suas obras completas está, também presente em vários momentos dos trabalhos de Freire: <>. A obra mais conhecida de Gabriel Marcel era, então, <>. Lembro-me, entretanto, que vários dentre nós, incluindo-me neles, havíamos lido Prolégomènes à une métaphypsique de 1’espérance e Le mystère de l’être.
À medida que Freire aprofundava e, de uma certa maneira, diversificava suas re flexões, ele diversificava também suas fontes, que passam a ser mais próximas das ciências políticas e sociais: o ISEB, Karl Mannheim, Zevedei Barbu (este, junto a suas posições políticas e sociológicas, faz discurso psicológico da ditadura e da democracia).
Até 2001, quando o Instituto Paulo Freire, de São Paulo, em cooperação com a Cortez Editora, organizou uma primeira edição comercial de Educação e atualidade brasileira, a tese original de Paulo Freire era pouco conhecida. Do meu ponto de vista, esta publicação se torna um documento de significativo valor histórico.
Tal publicacão reuniu, não somente o texto integral de Educação e atualidade brasileira, mas uma <>(Paulo Freire e o Pacto Populista), elaborado por José Eustáquio Romão, depoimentos por filhos de Paulo Freire e um, assinado por mim mesmo (Reafe – Cultura e Participação: 1950-1964).
A bibliografia citada por Paulo Freire em Educação e actualidade brasileira não se restringe às fontes / fundamentos da tese. Sigamos a apresentação que é dada por Paulo, Freire. Primeiramente, ela é organizada em dois grupos: 1) <>; 2) < >. Em minha opinião, não há diferenças importantes entre elas.
Por outro lado, pode se ver que Freire não cita uma bibliografia totalmente consistente, no sentido de que ela seja indicadora do caminho lógico percorrido pelo autor, no exercício de construcão de sua tese. De minha parte não quero com isso dizer que o autor da tese tenha percorrido uma outra direção, em relação ao pensamento apresentado pelos autores citados. Porém, que ele tem um pensamento próprio, de cuja bibliografia ele destaca (tira) uma referência, não contudo uma determinante.
Impelido, talvez, pela independência de suas idéias, pela consistência lógica inteiramente irrepreensível, de seus pontos de vista, Freire não se sente constrangido a citar, comentar e, às vezes, defender, em parte, certas fontes canseis adoras, à maneira de Peter Drucker, de Carlos e Paulo Maciel, cujas competências e seriedade pessoais não eram contestadas, nem de destacar um artigo de jornal, ao lado de uma obra sociológica, filosófica, política, pedagógica. Tudo isto era, no mínimo, um ato de coragem, considerando que a defesa de Educação e atualidade brasileira seria uma prática < > e, independente de posições pessoais de Freire a respeito dos processos acadêmicos, seria, então necessário, prestar-lhes obediência.
Freire cita – e não de modo superficial – os autores clássicos que falam da cultura brasileira, nos séculos XVIII (J. A. Antonil, 1711) e XIX (J. A. Rugendas) que registraram importantes aspectos da cultura brasileira em pinturas e em desenhos.
Auguste de Saint-Hillaire, que viaja através do Brasil, à busca de um conhecimento de sua botânica (séc. XIX) ; o Padre Manuel da Nóbrega (séc. X3’I), missionário jesuíta, um dos raros missionários que ressuscitaram os costumes dos nativos; até chegar a Gilberto Freire, a Fernando Azevedo, a Anísio Teixeira, no séc. XX – Essas são referências acadêmicas que Freire, porém, não fez por conta de sua natureza acadêmica e, sim, como uma exigência sociológica.
Coerentemente, Freire reservou um espaço privilegiado aos autores que lhe deram suporte ideológico: ao ISEB (Vieira Pinto, Guerreiro Ramos, Roland Corbisier...), e ao discurso da consciência ingênua, da consciência crítica, da criticidade. Discurso que, sendo também o discurso de Paulo Freire, o que F'reire pensa, não é simplesmente uma cópia dos isebianos.
Freire trabalha com familiaridade as fontes filosóficas do humanismo francês pré-existencialista (Gabriel Marcel, Jacques Maritain, Simone Weil), de orientação católica; os sociólogos estão mais em evidência, principalmente por suas reflexões sobre a educação e a política, brasileiros e estrangeiros (Florestan Fernandes, L.T. Hopkins, R. Livingstone, Karl Mannheim, J. Mantovani, A. Tocqueville, Oliveira Viana, A.N. Whitead, W.H. Kilpatrick, John Dewey, Maurice Duverger).
Faz-se necessário, finalmente, mencionar Zevedei Barbu, que estuda a democracia e a ditadura, a partir de uma reflexão psicológica: Democracy and Dictatorship: their psychology and patterns of life, e obra datada de 1956, por conseguinte, um pouco antes, pode ser durante a construção de Educação e atualidade brasileira.
Evidentemente, estas são as fontes que levaram Paulo Freire à formação e à organização de suas primeiras idéias filosóficas, políticas e pedagógicas, cujo 1º resultado concreto foi Educação e atualidade brasileira.
A partir desse momento, tudo se tornará um exercício de aprofundamentos, de novas fontes, de novas experiências, de reinvenções, de recriações, de um constante retorno a um certo núcleo temático, <> afirma ele em Anão Cultural para a liberdade. E, uma vez mais, repete <<é meu jeito de escrever sobre aquilo que eu penso e de pensar sobre aquilo que eu faço>>.
3. PARA CONCLUIR: O exílio e retorno
Freire resistiu por demais à possibilidade do exílio. Entretanto, não lhe restava outro caminho, como escolha a fim de sobreviver e prosseguir na construção de suas idéias. A decisão de partir para o exílio, de se entregar àquilo que era uma imposição lógica e, também uma pressão decorrente de uma complexa rede de sentimentos, às vezes contraditórios, torna-se finalmente objeto daquilo que denomina de <> : parturição de idéias, de decisões, à moda da maiêutica socrática.
Freire permanece no exílio, de setembro de 1964 a junho de 1980. Ele tinha
43 anos quando partiu para o exílio. Por ocasião de seu retorno, quase 17 anos transcorridos, ele vinha com uma barba branca, que havia deixado crescer nos Estados Unidos. Ele retornava também, curioso por compreender o Brasil de 1980. Para <> o Brasil. Carlos Rodrigues Brandão (2002:11) escreveu: <<à medida que envelhecia, seus cabelos foram se tornando mais raros e mais brancos, até embranquecerem totaìmente. A barba, antes mais curta, preta, dura tornou-se, bem como o rosto e o olhar, mais longa, mais obediente ao vento, mais suave>>.
O exílio, como toda vida do homem, à maneira da vida dos pássaros, é feita de momentos de vôo e de pausas10. Neste sentido, eu vejo como pausas de Paulo Freire, durante o exílio, sobretudo as do Chile e as do Conselho Mundial das Igrejas.
10 William James escreveu (Principles of Psychology) que a vida das pessoas é feita de momentos de vôo e de pausas. Como o homem, diz ele, não é muito diferente. Os vôos são momentos de passagem, das transições entre as pausas, que são as experiências substantivas. A partir de James escrevi um estudo biográfico acerca de Paulo Freire sobre os momentos de pausa que ele viveu.
Tais pausas eram quase refúgios, nos quais ele < > as experiências vividas, onde sobre elas refletia, recriava-as, reinventava-as, escrevia, outorgando-se, às vezes, um < >, eu diria mesmo, para recompor suas forças e retomar seu clã, para um novo vôo. De tais pausas, ele torna a partir sempre: Estados Unidos, México, África... o mundo, ida e volta.
Uma vez por todas, é o fim do exílio. É a volta ao Brasil. O Brasil passa a ser, então, a volta à primeira pausa. Freire, entretanto, não abandona mais os vôos. Ele é, agora, um cidadão do mundo, sem deixar, diz-nos ele, de ser um cidadão do Recife, de Pernambuco, do Nordeste, do Brasil, da América Latina...
De volta, ele fez de Sào Paulo seu endereço pessoal e de trabalho, sem perder sua dimensão de andarilho (de peregrino) da utopia12: agora, não somente pelos países estrangeiros, mas através do Brasil.
4. OBRAS CITADAS
BEISIEGEL, Celso de R.. Política e Educacão Popular (A Teoria e a Prática de Paulo Freire no Brasil). 3° edição. São Paulo : Atice, 1992.
FREIRE, Paulo . A importâcia do ato de ler. 2° edição. São Paulo : Autores Associados e Cortez, 1982.
______________. Cartas a Cristina. São Paulo: Paz e Terra, 1994.
Educado e atualidade brasileira. São Paulo: Instituto Paulo Freire e Cortez Editora, 2001.
FREIRE Ana MA.. A voz da esposa. In: Gadotti, M. (Organizador), Paulo Freire: uma Biobibliografia. São Paulo: Cortez Editora, UNESCO, Instituto Paulo Freire, 1996.
Notas em Cartas a Cristina. In : Paulo Freire, Cartas a Cristina. São Paulo: Paz e Terra, 1994.
FÁVERO, O. MEB - Movimento de educação de base. Primeiros tempos: 1961 – 1966. In: Paulo Rosas (Organizador), Paulo Freire: educação e transformação social. Recife: Centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisas; Ed. Universidade da UFPE, 2002.
LYRA, Carlos. Às quarenta horas de Angicos. São Paulo: Cortez Editora, 1996.
ROMÃO, José E.. Paulo Freire e o pacto populista. In: Paulo freire, Educaçào e atualidade brasileira. São Paulo: Instituto Paulo Freire e Cortez Editora, 2001.
11 No Recife, bem como, em outros lugares, Freire, às vezes, antecipava seus escritos, falando de suas idéias (conferências, cursos ou simplesmente conversas, diálogos). Naquela ocasião ele os denominava de <> ou <>.
12 Em português, fala-se de andarilho, caminhante, vagabundo, tecelão da utopia. Em francês, eu escolhi a palavra: Routier de l’utopie. A palavra <> é empregada, em frances, em vários sentidos. Aqui, eu penso no sentido de aventureiro, um homem que percorreu o mundo.
ROSAS, Paulo. Recife cultura e participação (1950-64). In: Paulo freire, Educaçào e atualidade brasileira. São Paulo: Instituto Paulo Freire e Cortez Editora, 2001.
ROSAS, Paulo. Papéis avulsos sobre Paulo Freire, 1. Recife: Centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisa; Ed. Universidade da UFPE, 2003.
ROSAS, Paulo (Organizador), Paulo Freire: educação e transformação social. Recife: Centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisas; Ed. Universidade da UFPE, 2002.

Método




Entrevista de Maria Adozinda Monteiro da Costa
Jornal do Commercio, Recife, 16 de setembro de 2001
A educadora Maria Adozinda Monteiro da
Costa conheceu Paulo Freire ainda
criança. Prima do educador, participou
com ele da formação dos círculos de
educação e culturas, implantados no início
da década de 60 para alfabetizar jovens e
adultos. Para Adozinda, a maior
contradição, hoje, é promover a
pedagogia libertadora, defendida por
Paulo Freire, em um País que é
economicamente opressor e que não está
habituado a formar cidadãos críticos.
JORNAL DO COMMERCIO - O pensamento de Paulo Freire se resume ao método de alfabetização proposto por ele?
MARIA ADOZINDA COSTA - Nâo. Ele não é só o método, transcende isso. É uma
pedagogia, um pensamento, Quando você reduz a método, acha que o método é maior
que o sujeito. A pedagogia de Paulo Freire vê o aluno como sujeito do seu próprio
processo de aprendizagem e não como um objeto passivo.
JC - Qual o argumento usado para defender essa idéia?
MARIA ADOZINDA - Paulo diz que a aprendizamgem é um evento social, A
construção e a apropriação do conhecimento é um evento social, embora passe pelo
individual. O diálogo é fundamental. O programa não pode ser uma coisa préestabebelecida,
de tal forma que não tenha movimento, nem historicidade. Que
cartilha é essa, que fala de pudim, feita para quem? O universo temático tem que
surgir da experiência existencial dos alunos. Seus sonhos, suas dificuldades, suas
desilusôes. Por isso, ele pesquisava, ia para a comunidade onde o círc ulo de cultura
seria aberto, para levantar essas questões. Aliás não havia o rigor estatístico. Era uma
pesquisa de vida, quente e não fria. Paulo não teve medo de não ser científico.
JC - Que outras inovações apresenta o pensamento freiriano?
MARIA ADOZINDA - Ele mudou a estética da sala de aula. Ele achava horrível as filas
de carteiras, uma atrás das outras. O que é que se vê? Somente a nuca do outro.
Supunha também que o professor era a única fonte de saber. Não, ele muda essa
estética. Paulo Freire propõe que seja um círculo, cara a cara, conversando,
interlocutores. Isso mexe também com o que é ser professor, no que é ensinar e
aprender. Passa a ser uma troca de saberes.
JC - Em Recife atualmente, você conhece alguma escola que adote integralmente a filosofa de Paulo Freire?
MARIA ADOZINDA - Agora, não sei.Parece-me que os governos mudam muito, de um para outro, Todo mundo começa a descobrir, a criar a roda. Até 98 havia muitos círculos de cultura na periferia do Recife e na Zona da Mata, A maravilha dessa experiência do Estado foi que houve, pela primeira vez, uma artticulação entre secretarias, entre competências, entre saberes.
JC - Dentro da perspectiva freiriana, qual o principal desafio hoje na educação?
MARIA ADOZINDA - A grande contradição hoje é promover uma pedagogia
libertadora em um País que é economicamente opressor. A maior lição, para mim, a
partir de Paulo Freire, é que ele toca nas suas possibilidades. Sua pedagogia se arma
do possível para buscar o impossível. Paulo não morreu, estará completando 80 anos.
Ele é um inventor, um curioso constante, um perguntador constante, um aprendiz. Eu
acho fantástico, porque a pedagogia dele fala sobre a vida, a dor, a fome, a alegria, a
felicidade. Há o comprometimento com a existência das pessoas.

Fotos




O Método


O MÉTODO PAULO FREIRE
Não é possível se falar da compreensão de educação de Paulo Freire sem nos referirmos e nos determos numa parte intrínseca dela: o seu “Método de Alfabetização”. Esse vai além da simples alfabetização. Propõe e estimula a inserção do adulto iletrado no seu contexto social e político, na sua realidade, promovendo o despertar para a cidadania plena e transformação social. É a leitura da palavra, proporcionando a leitura do mundo. Suas idéias nasceram no contexto do Nordeste brasileiro a partir da década de 1950, onde metade dos seus 30 milhões de habitantes eram analfabetos, com predomínio do colonialismo e todas as vivências impostas por uma realidade de opressão, imposição, limitações e muitas necessidades. Freire aplicou, pela primeira vez, publicamente, o seu método no “Centro de Cultura Dona Olegarinha”, um C írculo de Cultura do Movimento de Cultura Popular do Recife (MCP) para discussão dos problemas cotidianos na comunidade de “Poço da Panela”.Dos 5 alunos, três aprenderam a ler e escrever em 30 horas, outros 2 abandonaram o “curso”.O método de alfabetização de Paulo Freire é resultado de muitos anos de trabalho e reflexões de Freire no campo da educação, sobretudo na de adultos em regiões proletárias e subproletárias, urbanas e rurais, de Pernambuco. No processo de aprendizado, o alfabetizando ou a alfabetizanda é estimulado(a) a articular sílabas, formando palavras, extraídas da sua realidade, do seu cotidiano e das suas vivências. Nesse sentido, vai além das normas metodológicas e lingüísticas, na medida em que propõe aos homens e mulheres alfabetizandos que se apropriem da escrita e da palavra para se politizarem, tendo uma visão de totalidade da linguagem e do mundo. O método Paulo Freire estimula a alfabetização/educação dos adultos mediante a discussão de suas experiências de vida entre si, os participantes da mesma experiência, através de tema/palavras gerador(as) da realidade dos alunos, que é decodificada para a aquisição da palavra escrita e da compreensão do mundo. As experiências acontecem nos Círculos de Cultura.
“Estudar não é um ato de consumir idéias, mas de criá-las e recriá-las.” FREIRE P.. (1982) Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra (6ª edição), pp. 09-12.
O “MÉTODO PAULO FREIRE” ESTÁ ESTRUTURADO EM TRÊS ETAPAS:
1) Etapa de Investigação: aluno e professor buscam, no universo vocabular do aluno e da sociedade onde ele vive, as palavras e temas centrais de sua biografia. 2) Etapa de Tematização: aqui eles codificam e decodificam esses temas, buscando o seu significado social, tomando assim consciência do mundo vivido. 3) Etapa de Problematização: aluno e professor buscam superar uma primeira visão mágica por uma visão crítica do mundo, partindo para a transformação do contexto vivido. Em seu livro Educação como Prática da Liberdade, Freire propõe a execução prática do Método em cinco fases, a saber:
1ª fase: Levantamento do universo vocabular dos grupos com quem se trabalhará. Essa fase se constitui num importante momento de pesquisa e conhecimento do grupo, aproximando educador e educando numa relação mais informal e portanto mais carregada de sentimentos e emoções. É igualmente importante a anotação das palavras da linguagem dos componentes do grupo, dos seus falares típicos.
2ª fase: Escolha das palavras selecionadas do universo vocabular pesquisado. Esta escolha deverá ser feita sob os critérios: a) da sua riqueza fonética; b) das dificuldades fonéticas, numa seqüência gradativa das menores para as maiores dificuldades; c) do teor pragmático da palavra, ou seja, na pluralidade de engajamento da palavra numa dada realidade social, cultural, política etc.
3ª fase: Criação de situações existenciais típicas do grupo com quem se vai trabalhar. São situações desafiadoras, codificadas e carregadas dos elementos que serão decodificados pelo grupo com a mediação do educador. São situações locais que, discutidas, abrem perspectivas para a análise de problemas locais, regionais e nacionais.
4ª fase: Elaboração de fichas-roteiro que auxiliem os coordenadores de debate no seu trabalho. São fichas que deverão servir como subsídios, mas sem uma prescrição rígida a seguir.5ª fase: Elaboração de fichas para a decomposição das famílias fonéticas correspondentes aos vocábulos geradores. Esse material poderá ser confeccionado na forma de slides, stripp-filmes (fotograma) ou cartazes.

“É mais do que um método que alfabetiza, é uma ampla e profunda compreensão da educação que tem como cerne de suas preocupações a natureza política.”(A Voz da Esposa - A Trajetória de Paulo Freire)

Teorias


“(...) Assim como o opressor, para oprimir, precisa de uma teoria da ação opressora, os oprimidos, para libertar-se, necessitam igualmente de uma teoria de sua ação. O opressor elabora a teoria de sua ação, necessariamente sem o povo, pois que é contra ele. O povo, por sua vez, enquanto esmagado e oprimido, introjetando o opressor, não pode, sozinho, constituir a teoria de sua ação libertadora. Somente no encontro com a liderança revolucionária, na comunhão de ambos, na práxis de ambos, é que esta teoria se faz e refaz.”(FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.)

Conflitos de Classe


CONFLITOS DE CLASSE
No processo produtivo surgem relações sociais entre as diferentes pessoas e categorias de pessoas, de acordo com o papel que ocupam no próprio processo e por sua relação (quem é o proprietário) com os meio de produção (terra, ferramentas, etc.), por exemplo, entre empresários e trabalhadores. Como os proprietários dos meios de produção se apropriam de algo que não lhes correspondem, ou seja, que se aproveitam do trabalho dos trabalhadores, entre trabalhadores e patrões as relações são difíceis, não são harmônicas, nem entre iguais. Estes conflitos não são entre as pessoas em sentido individual, como seria entre Pedro e João, mas são entre os empresários e os trabalhadores, considerados como classes sociais que se opõem no processo produtivo.